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Santo Daime: História, Origem e Caminho até os Dias Atuais

O Santo Daime é uma doutrina espiritual brasileira que se consolidou na Floresta Amazônica no início do século XX, tendo como sacramento a bebida enteógena conhecida como Daime, o chá preparado a partir da união do cipó Jagube (Banisteriopsis caapi) com a folha Rainha (Psychotria viridis), também chamada de Chacrona. Com base em princípios cristãos, forças da natureza e saberes indígenas, o Santo Daime é considerado uma síntese espiritual profundamente brasileira, que une cura, expansão de consciência, disciplina e devoção.



A Vida do Mestre Irineu

Raimundo Irineu Serra nasceu em 1892, no Maranhão, em uma família humilde afrodescendente. Alto, forte e de personalidade tranquila, desde jovem buscou caminhos de espiritualidade e disciplina. Na juventude, mudou-se para a Amazônia, como muitos nordestinos da época, para trabalhar nos seringais.



O Encontro com a Ayahuasca

Já integrado ao ambiente amazônico, Irineu teve contato com povos indígenas e vegetais da floresta. Por volta de 1912 a 1918, conheceu o chá que mais tarde chamaria de Daime. A partir de suas experiências espirituais profundas com a bebida, passou por um processo de revelações e instruções espirituais, especialmente relacionadas ao que ele chamava de Rainha da Floresta, uma manifestação da Nossa Senhora da Conceição.

Nas mirações, recebeu orientações para criar uma doutrina espiritual organizada, com cânticos, símbolos, disciplina ritual e trabalho espiritual voltado para cura e transformação do ser humano.



Nascimento do Santo Daime

Na década de 1930, após se estabelecer em Rio Branco (Acre), Mestre Irineu fundou o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – Alto Santo, dando forma à doutrina chamada de Santo Daime.

Ele implantou:

  • Hinários – cânticos recebidos mediunicamente que guiam os trabalhos

  • Uniformes – simbolizando disciplina, igualdade e ordem

  • Fardamento – distinção de funções dentro da casa espiritual

  • Trabalhos Espirituais – bailados, concentrações, cura e celebrações

Mestre Irineu era reconhecido como um curador poderoso, com grande carisma, simplicidade e sabedoria prática.

Ele faleceu em 1971, deixando um legado espiritual vivo, guiado pelos seus hinários, orientações e pela continuidade de seus discípulos.


Evolução da Doutrina Após Mestre Irineu

Após sua passagem, o Santo Daime seguiu dois caminhos principais:

  1. A Linha do Alto SantoPreservada por sua comunidade original, mantendo a doutrina conforme ensinada por Mestre Irineu, com foco na simplicidade, nos bailados e na devoção mariana.

  2. A Linha da Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal (ICEFLU)Desenvolvida por Sebastião Mota de Melo, o Padrinho Sebastião, um dos grandes discípulos de Irineu.

    • Trouxe influências do espiritismo kardecista, umbanda, conhecimentos da floresta, e expandiu a prática comunitária.

    • Na década de 1980, sua comunidade migrou para o Amazonas, criando Céu do Mapiá, hoje o centro da ICEFLU e referência mundial.

Essas duas vertentes, apesar de diferenças práticas, compartilham o mesmo fundamento: o Daime como sacramento sagrado a serviço da transformação espiritual.

O Santo Daime e a Expansão para o Mundo

A partir dos anos 1980, a doutrina começou a se expandir para:

  • Sudeste e Sul do Brasil

  • Europa (principalmente Holanda e Espanha)

  • América do Norte e outros continentes

Por ser uma religião nascida na floresta, carregando valores de cura, natureza e consciência, encontrou terreno fértil em contextos de busca espiritual contemporânea.

Essa expansão trouxe desafios:

  • Regulamentações jurídicas sobre o uso da bebida enteógena

  • Diálogo intercultural com países de tradições diferentes

  • Organização global sem perder raízes e sentido

No Brasil, hoje, o uso ritual do Daime é regulamentado pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD), reconhecendo seu caráter religioso.

A Doutrina na Atualidade

O Santo Daime continua crescendo e se transformando, sem perder os pilares recebidos pelo Mestre Irineu:

Princípios espirituais fundamentais

  • Amor e Harmonia

  • Verdade e Justiça

  • Disciplina, Obediência e Humildade

  • Cura espiritual e moral

  • Conexão com a natureza e com o sagrado

Práticas centrais

  • Trabalhos de bailado, onde os fiéis cantam e dançam em geometria espiritual

  • Concentrações de silêncio e meditação

  • Trabalhos de cura como atendimento espiritual

  • Festividades litúrgicas ao longo do ano

O Santo Daime permanece como uma trilha de autoconhecimento, responsabilidade e serviço ao próximo, atraindo pessoas em busca de conexão espiritual profunda e expansão da consciência.

Legado

Hoje o Mestre Irineu é celebrado como um dos grandes líderes espirituais brasileiros. Seu legado é mantido por meio de:

  • Suas palavras e ensinamentos

  • Seus hinários, considerados doutrina viva

  • A comunidade que segue e propaga sua obra com devoção

Mais que uma religião, o Santo Daime se tornou uma caminhada espiritual viva, que continua brotando como a própria floresta: renovando-se, curando e guiando os que buscam luz.




Histórico Organizativo

Origens, Histórico e Objetivos

O Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra – CEFLURIS – é um centro espiritualista organizado na forma de uma sociedade civil sem fins lucrativos. Foi fundado em outubro de 1974, na cidade de Rio Branco, estado do Acre. Em maio de 1989, passou por uma ampla reformulação estatutária, quando se transformou em entidade nacional congregando filiais em varias cidades brasileiras.

No ano de 1997, com o crescimento da nossa instituição e a expansão do seu trabalho tanto no Brasil como no exterior, realizamos uma ampla reforma institucional, que separou a esfera religiosa e doutrinária da administrativa. A Igreja mudou seu nome para Igreja do Culto Ecléctico da Fluente Luz Universa Patrono Sebastião Mota de Melo - ICEFLU e teve seus novos estatutos promulgados em 1998. Em seu novo diploma legal, a ICEFLU reafirma o caráter sagrado do seu sacramento, por nós denominado  de SANTO DAIME, cuja utilização é feita estritamente dentro das cerimônias religiosas e sua distribuição restrita às nossas filiais

Neste mesmo ano foi criado o Instituto CEFLURIS, de cunho ambiental e social e encarregado de organizar o quadro associativo. A produção e distribuição do sacramento passou a ser realizada pela igreja. Iniciou-se, desde então. um programa nacional de associativismo, visando a implantação de um sistema de mensalidades que se constitui na base de nossas receitas institucionais.


Nossos fundamentos doutrinários baseiam-se na revelação espiritual de dois homens: o Mestre Raimundo Irineu Serra (1892 - 1971), fundador da doutrina do Santo Daime, e o Padrinho Sebastião Mota de Melo (1920 - 1990), um dos seus mais destacados discípulos, fundador e patrono da Igreja.

A base do nosso trabalho espiritual é o estudo da revelação dos hinários recebidos pelos mestres fundadores. Nas cerimônias cantamos e bailamos os hinos sob o efeito da bebida sacramental. Chamamos de miração as visões extáticas interiores, "insights", um estado de ampliação da consciência e de grande acuidade mental que experimentamos com a ingestão ritual da bebida, chamada Ayahuasca ou Santo Daime - fruto da cocção das plantas Banisteriopsis Caapi e da Psychotria Viridis.


No desenrolar dos hinários e nos trabalhos de concentração, entramos em contato com estes níveis de consciência que correntes da psicologia chamam de transpessoais e que, para nós, representam  contatos com o mundo espiritual. Os rituais são para nós datas de festa que constam de um calendário oficial, quando o Santo Daime é distribuído na forma de um sacramento e de uma eucaristia, segundo normas estritas.

Nosso trabalho espiritual se origina em práticas ancestrais de povos pré-colombianos, que há milênios já utilizavam as plantas psicoativas como um meio de comunicação com as divindades e os espíritos de seus antepassados. Neste século, esta antiga tradição tomou sua atual feição eclética e cristã, através da revelação recebida pelo Mestre Irineu. Foi por ele que a Doutrina foi codificada e a sua essência esta sintetizada nos hinários (coletânea de hinos recebidos) e  no decreto de serviço. Conforme depreende-se de seus estatutos e ata de fundação, a principal finalidade do nossa Igreja é e realizar os rituais, nas sessões periódicas fixadas em nosso calendário. Sempre atentos ao principio doutrinário de não fazer convites nem proselitismo, o procedimento para receber os novatos consta ainda de uma entrevista de avaliação feita por um grupo de recepção. De acordo com as entrevistas e as vivências adquiridas nos seus primeiros trabalhos espirituais, e após um tempo de frequência aos rituais, o neófito poderá requerer o grau de adepto que será consagrado na solenidade de fardamento.


O fundador do CEFLURIS, Sebastião Mota de Melo, carinhosamente chamado de Padrinho Sebastião, era um seringueiro amazonense dotado de grande vigor profético e carisma espiritual. Nascido e criado na floresta, sempre foi uma pessoa simples, generosa e hospitaleira. Nossa organização religiosa começou, portanto, de maneira bastante informal e familiar, até ganhar os contornos jurídicos e legais de uma instituição internacional, tal como hoje se apresenta.

Portanto, a história do CEFLURIS se confunde um pouco com a saga do povo do Padrinho Sebastião. Tendo chegado, juntamente com sua família, a Rio Branco, Acre, no final dos anos 50, vindo de Eurinepé, no Estado do Amazonas, Sebastião Mota de Melo participou, desde 1965 dos trabalhos espirituais dirigidos por Raimundo Irineu Serra, de quem chegou a ser um dos principais feitores de Daime, autorizado inclusive a realizar seus próprios trabalhos. Em 1971, com o falecimento do Mestre, o Padrinho firmou sua liderança na Colônia Cinco Mil, nos arredores de Rio Branco, onde em 1974 construiu sua própria igreja e em seguida uma comunidade.

No final dos anos 70, com  a  destruição da floresta próxima à cidade, Sebastião Mota de Melo lançou o desafio de transferir a comunidade para o interior da floresta. O INCRA indicou-lhe uma área, no Rio do Ouro,  Estado do Amazonas. Com grandes sacrifícios, a administração da comunidade comprou um caminhão para  transferir o povo da periferia de Rio Branco até este local de difícil acesso, no início de 1980


Em dezembro de 1982, a comunidade assentada no Rio do Ouro foi visitada por uma comissão chefiada pelo comandante do 7º Batalhão de Engenharia de Rio Branco, coronel Guarino. Foi a primeira visita de autoridades para avaliar o uso do Daime. Com esta finalidade foi criada uma comissão interdisciplinar de estudo, que contava com militares, membro do poder público, academia, médicos, psicólogos, historiadores, antropólogos, etc.

No entanto, após quase três anos de intenso trabalho e colonização da área, com a preparação de roçados e a construção de benfeitorias, surgiram pendências quanto a legalidade da posse da área oferecida pelo INCRA e o próprio  Padrinho Sebastião, descontente com esta demanda fundiária, optou pela colonização de uma nova área, também indicada pelo INCRA, desta vez em antigo seringal desativado junto às cabeceiras do igarapé Mapiá.


Graças a boa impressão causada junto a esta comissão, que incluiu diversos trabalhos de campos, aplicação de testes e relatórios, a comunidade obteve todo o apoio, incluindo cartas de recomendação do coronel Atos Fichler, que substituiu o coronel Guarino, do governador do Acre (na época, Nabor Júnior) da reitora da UFAC, do presidente da Fundação Cultural, etc. 

É importante destacar que o realocamento deste povo do Rio do Ouro para o Mapiá , foi feito de forma totalmente ordeira, pacífica e com seus próprios recursos, na medida que a comunidade não foi sequer indenizada pelo valor das benfeitorias efetuadas durante os quase três anos que estiveram no Rio do Ouro. Convém frisar também que a fixação do povo do Padrinho Sebastião no igarapé Mapiá é anterior ao decreto de criação da Floresta Nacional em 1989. Hoje, a Comunidade  Céu do Mapiá, o segundo maior assentamento urbano do município de Pauini /AM, é um agrupamento próspero e produtivo, que reúne aproximadamente 1000 pessoas, a maioria concentrada na vila do mesmo nome, na bifurcação entre os igarapés Mapiá e Repartição.


Desde meados dos anos 80, a Vila Céu do Mapiá se tornou um centro de peregrinação para todos os membros das igrejas de outras regiões do Brasil e do exterior. A partir deste intercâmbio cada vez mais intenso, que incluíam a visita de comitivas do Mapiá aos grupos que se formavam nestes locais, houve um crescimento significativo da nossa tradição.


Em 1987 foi criada a Associação de Moradores da Vila Céu do Mapiá. Técnicos do governo, bem impressionados com o perfil comunitário e coletivista da comunidade, sugeriram, já desde esta época, a formação de uma associação comunitária e de uma cooperativa para captar recursos para projetos de desenvolvimento comunitário. (anexo 1b - 0A, declaração ministério do interior); (anexo - 1c - 0b  ata de fundação da AMVC)

Neste mesmo ano, na Vila Céu do Mapiá, foi construída a nova sede matriz da igreja do então CEFLURIS, atual ICEFLU. Em 1989 esta região onde a comunidade estava assentada desde 1983, passou a fazer parte da recém demarcada Floresta Nacional do Purus. Em 1989, ainda em vida do Padrinho Sebastião,foi realizado o Primeiro Encontro Nacional das Igrejas e aprovado o novo estatuto da entidade.

Em meados da década de 90 foi iniciado os primeiros termos de cooperação entre a comunidade, representada pela sua Associação de Moradores e o IBAMA. A comunidade adquiriu o direito de participar da gestão da reserva e explorar os recursos naturais renováveis da área. Mas a demora de quase 20 anos para se dar início ao Plano de Manejo impediu qualquer avanço prático significativo.

    No final dos anos 90, o recém fundado Instituto CEFLURIS, em parceria com a AMVCM e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pauiní aprovaram quatro projetos de desenvolvimento local junto ao MMA e Governo Alemão através do Projeto Demonstrativo A, incluindo a secagem de frutas e  a produção de óleos vegetais, estimulando assim uma importante rede de produção local. Logo em seguida, é fundada também a COOPERAR, Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus. Em 2003, com o apoio da WWF foi realizado o Plano de Desenvolvimento Comunitário da Vila Céu do Mapiá e vários outros projetos começaram a ser desenvolvidos.


 


 
 
 

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